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segunda-feira, 26 de março de 2012

Entrevista - Jordan Macedo

"...Uma pedra preciosa que não é lapidada nem sempre é vista com bons olhos por quem não entende. O papel do produtor é justamente este: pegar a pedra bruta e lapidá-la para ela ficar bonita e apropriada para ser inserida na jóia."


Jordan Macedo é Produtor Musical e Engenheiro de Áudio, Mixagem e Masterização. Aos 28 anos, assina trabalhos de artistas conhecidos do cenário cristão, como a gravação de Thalles Roberto, Palavrantiga, Cris Duran e Heloísa Rosa. Ele conta que percebia a música de maneira diferente desde criança. “Lembro que, aos três anos de idade, eu já ouvia e me emocionava. Eu me sentia atraído e imaginava como seria tocar ou gravar, mas, claro, sem ter a mínima ideia do que aquilo representava”, conta.

Nascido em Teófilo Otoni, Jordan começou a estudar piano ainda aos cinco anos de idade, mas optou em aprender um pouco de cada instrumento em vez de ser um especialista apenas em um. “Tem alguma coisa no sangue”, conclui Macedo, enfatizando que tem muitos parentes músicos. Na adolescência, começou a produzir jingles e trabalhos publicitários de forma caseira, gravando até um disco para a igreja que frequentava. “Aquilo me despertou”, reflete. Após se formar Técnico em Administração pelo Sebrae-MG, curso que substitui o Ensino Médio, ele se mudou para o Rio de Janeiro, onde se formou em Gravação e Produção Fonográfica, na Faculdade Estácio de Sá.

De volta à cidade natal, começaram as primeiras gravações e, um ano depois, mudou-se para Belo Horizonte e fundou o próprio laboratório de áudio, o Polo Studio. E foi lá onde conversamos e ele falou da carreira e da profissão.



Na sala de controle da captura de áudio do DVD
de Thalles, no Chevrolet Hall
Ainda muito cedo, você estudou piano, mas também acabou conhecendo vários instrumentos. Isso aconteceu naturalmente ou foi uma opção?
JM: Eu tinha muita vontade de aprender a tocar piano aos cinco anos, mas tive uma instrução ruim. Não que minhas professoras eram ruins, mas, na época, não havia musicalização infantil ou ensino específico para crianças como hoje. Estudei com professoras de piano clássico, mas eu queria tocar música popular. Nas aulas, ensinavam apenas partitura. Quando eu chegava em casa, não tinha onde treinar, não tinha um teclado bacana. Depois de três anos, perdi o desejo pelo piano, mas não pela música. Foi então que estudei violão durante três meses com um professor particular. Depois de um tempo, eu pensei “poxa, seria legar ter uma noção de instrumento de sopro”, que foi quando fiz aulas de saxofone, mas treinava em uma flauta doce (rs). Fiz aulas de bateria também, que é o instrumento que eu me dou melhor. Eu nunca tive vontade de me especializar em um instrumento, mas eu queria conhecer e ter uma noção de vários. Acabou que eu comecei a entender de tudo um pouco. E isso me trouxe uma capacidade diferente de produzir, de criar. Apesar de não saber tocar todos com pleno domínio, meu ouvido é muito apurado. Eu pego as melodias que eu quero, em determinados instrumentos, e faço na mente e na boca em segundos, com precisão.

Você chegou a gravar um CD, certo?
JM: Sim, gravei. Na época, eu tinha acabado de formar na faculdade e ainda não tinha um portfólio. E a área de estúdio e produção não é algo que se tem vaga de emprego sobrando por aí. Normalmente, você tem que ter uma construção por trás. Então meu pai me ajudou, eu comprei um equipamento inicial e comecei a gravar dentro de casa. Como as coisas eram muito simples, eram clientes simples também. Não era gente que tinha muito dinheiro ou muita instrução musical. Por isso, eu quis fazer um projeto para que eu pudesse mostrar minha capacidade. Produzi um disco para eu mesmo cantar, e não sou um exímio cantor, muito pelo contrário. Mas eu fiz isso para poder mostrar a minha capacidade de produção. Eu queria um portfólio diferenciado.

E como foi o CD caseiro que você gravou para a sua igreja?
JM: Foi mais ou menos assim: eu tinha uns 15 ou 16 anos. Eu me interessava muito por gravação, tinha um computador em casa e uma plaquinha normal, de dois canais, que quase todo mundo tem. Eu ficava me divertindo com programas de gravação, de forma bem caseira mesmo. E, nessa época, eu fazia curso técnico de administração no Sebrae-MG, que era vinculado ao ensino médio. Comecei a fazer jingles para empresários, já que eu tinha contato com alguns e, consequentemente, a oferecer um produto: fazer spot para rádio, locução para supermercado, propaganda... Na mesma época, a igreja da qual eu era membro propôs gravar um disco, mas como eles iriam levantar a verba? Então eu disse: “Olha, eu gravo uns jingles lá em casa e posso tentar fazer um disco com umas quatro músicas. Vamos gravar e tenta vender aqui na igreja para tentar conseguir dinheiro”. Eles toparam e eu resolvi arriscar, mesmo sem ter ainda experiência. Depois uma pessoa chegou para mim e disse “Puxa, Jordan, minha mãe é cantora e pagou 'não sei quantos mil' para fazer um CD e esse que você fez na sua casa ficou muito melhor.” Na verdade, não é que ele ficou bom, mas já era diferenciado, uma coisa interessante. E isto me despertou para tentar investir mais nisso no futuro e tentar fazer alguma coisa com objetivos profissionais.

Alguns trabalhos de Jordan
Então você partiu para a faculdade?
JM: Fui aos 19 anos. Eu combinei com a minha família que iria estudar alguma coisa nesse sentido, mas não tinha encontrado nada no Brasil. Tentei ir para os Estados Unidos. Mas era época de 11 de setembro e não consegui o Visto. Pesquisando, descobri que na Estácio de Sá (Rio de Janeiro) tinha um curso tecnólogo, na época de dois anos e meio. Meus pais queriam muito que eu fizesse um curso superior e eles toparam. Mudei para o Rio de Janeiro e fiz a graduação em Tecnologia de Gravação e Produção Fonográfica. Formei e fiquei seis meses parado pensando: meu Deus, é isso mesmo que eu vou fazer? Depois que retornei para Teófilo Otoni, fiquei lá durante um ano. Então gravei um disco para um ministério da minha igreja, ao vivo. Ele vendeu mais de 20 mil cópias. Interessante que depois deste trabalho, a notícia se espalhou pela cidade e muitas bandas seculares começaram a me procurar. Logo em seguida, eu gravei uma banda de rock, depois uma banda de axé também me procurou e gravei. Eram os trabalhos que apareciam. Foi importante juntar esse portfólio para ir para Belo Horizonte e encarar a capital, aos 22 anos. Logo depois, iniciei os trabalhos do Polo Studio.

E como você descreveria, de uma forma simples, o trabalho de um produtor musical?
JM: O produtor musical pode fazer várias coisas. Ele pode, por exemplo, pegar as ideias do artista e transformá-las ou ordená-las, ou ele pode pegar um artista do zero, conhecer este artista e extrair dele o que ainda não se conhece, o que está escondido dentro dele. Eu já peguei artistas que vinham com algo quase pronto, mas sem muita ordem. Então o produtor ordena uma situação para a musicalidade da pessoa funcionar. Há, ainda, a situação em que vemos pessoas que não se conhecem e fazemos com que elas se conheçam, para extrair a musicalidade dela. Algumas chegam com a música desenvolvida ou com a música do zero. Muitas vezes, o produtor musical, do mercado mesmo, é o cara que escolhe até mesmo o repertório do artista. Às vezes, o músico não é necessariamente um artista, mas é um compositor. Ou então ele é apenas um intérprete. Existem vários casos. Por exemplo, o cara já compõe e grava as músicas dele mesmo: basicamente, o produtor musical trabalha com essa letra e agrega o valor que isso realmente tem através da música e melodia. Ele pode, às vezes, fazer mais, como alguns arranjos, pela visão do todo em si. Mas não necessariamente o produtor é arranjador.

Para um trabalho musical dar certo e ‘estourar’, o que é mais importante? O talento natural, um produtor muito bom ou as duas coisas? Qual é o papel de cada um neste processo? Existe uma regra?
JM: Baseado em tanta coisa ruim que tem no mercado, eu até poderia ousar em dizer que não existe regra, mas existe sim. Coisas mínimas são necessárias. O produtor, junto com a tecnologia, bons engenheiros de gravação, mixagem e masterização, tem a capacidade de pegar qualquer coisa e transformar em um produto que venda. Mas não necessariamente isto vai funcionar ao vivo. Tem que haver um mínimo de qualidade aí. Uma pessoa cantando 100% desafinada difícilmente irá fazer sucesso. Só na maquiagem não dá. Apesar ter muita gente no mercado desafinada, não há alguém que é completamente. Existem pessoas que compõem muito bem e querem gravar um CD. Mas, muitas vezes, não tem timbre vocal e não sabem cantar, não sabem interpretar uma música. Para um bom fruto, acho que é importante a junção de uma boa composição, uma boa interpretação e uma boa criação musical na hora da produção e um produtor com bom senso. Tenho visto hoje muitos artistas que estão sendo produzidos de forma errada, às vezes querendo gravar com influências de rock, enquanto o valor que a pessoa tem é na musicalidade pura e simples, da voz e violão ou do piano e voz, por exemplo, com a valorização da composição sem “encher de coisa”, encher de instrumentos, de arranjos. O verdadeiro produto que pode dar certo é o resultado da junção da boa música no estágio da composição com a boa interpretação, direcionada por um bom produtor, feita por bons músicos, com boa qualidade de gravação, uma boa qualidade de mixagem e humildade do artista depois para se relacionar com as pessoas, porque ninguém gosta de arrogância.

Thalles e Jordan, nos bastidores da gravação
do DVD "Uma história escrita pelo dedo de Deus"
Você acha que existem elementos fundamentais para um artista romper? Quais as principais características de um artista?
JM: Primeiro é preciso entender o que a pessoa quer. Ela deve ter, antes de qualquer coisa, força de vontade. Para dar certo hoje, tem que dar o sangue. Não basta simplesmente gravar um CD ou ter dinheiro, tem que estar disposto a aprender. Se tratando de um cantor ou banda, tem que haver uma harmonia entre composição, interpretação, e funcionalidade da "coisa musical" no ao vivo. Hoje em dia, estamos vivendo um momento consequente de um “boom” de tecnologia e precisamos voltar para a musicalidade natural.


Você gravou vários artistas de estilos diferentes, como Thalles, Palavrantiga, Bruno Branco. Pode falar um pouco desta variedade de estilos e definir melhor o que você chama de musicalidade natural?
JM: Musicalidade natural é a qualidade suficiente com a pessoa e a música por si só... Uma composição boa de verdade é boa sem instrumento. Como letra sozinha, para você ler, já é uma coisa interessante. Acho que começa por aí. Depois, isto musicado ao natural, com o gingado que a pessoa usa para transformar essa letra em música, cantada sem istrumento, o resultado deve ser satisfatório. Por exemplo, o Thalles é um excelente intérprete. As músicas dele são feitas com letras simples. Mas ele sabe dar vida para qualquer letra. Ele tem uma dinâmica musical dentro dele que transforma isto em uma coisa interessante. Já o Palavrantiga é um conjunto musical muito legal. Tem o Marcos Almeida que faz boas composições e a banda conversa muito bem, ela tem uma identidade musical natural. E o Bruno Branco, quando chegou aqui no estúdio, pegou o violão e começou a me mostrar algumas músicas. Eu achei a música interessante e o jeito dele de musicar isto também. Vi uma pedra a ser lapidada, apesar dela já ser preciosa, entendeu? Só que uma pedra preciosa que não é lapidada nem sempre é vista com bons olhos por quem não entende. O papel do produtor é justamente este: pegar a pedra bruta e lapidá-la para ela ficar bonita e apropriada para ser inserida na jóia.

Dos trabalhos que você fez, tem algum que mais te marcou?
JM: Vários trabalhos me marcaram, por motivos diferentes. O trabalho do Palavrantiga, o primeiro disco, foi marcante porque a música era boa e eu fiz um trabalho técnico muito bom, o resultado me deixou muito feliz. O CD do Thalles, de modo geral, me marcou muito também, porque vendeu mais de 120 mil cópias e não é toda hora que você participa de um projeto que desponta assim no mercado. Ter visto toda a equipe dele acreditar em mim e no meu potencial foi gratificante. O CD do Bruno me marcou também porque eu pude ver a minha capacidade de lapidar uma pedra. A exemplo do que expliquei, consegui extrair dele uma essência, explorar a poesia das composições.

E sobre o equipamento para as gravações, você usa ou recomenda algo específico?
JM: Na verdade, não existem equipamentos específicos que eu uso, ou alguma coisa que defino como indispensável ou dispensável. A música não tem limite. A tecnologia está aí. O que importa é o som e não o meio em que você vai tirar este som. Não sou muito bloqueado no sentido de “ah, tem que ter tal equipamento, assim exatamente”. Claro, acredito que precisamos do mínimo de qualidade. Mas a criatividade somada ao que se tem nas mãos é a chave para se conseguir bons resultados.

Tenho feito sempre a próxima pergunta quando converso com pessoas que são cristãs e, de alguma forma, estão envolvidas com a música. O assunto merece discussão e debate. Na sua visão de produtor, como você enxerga a separação entre música secular e música religiosa? Você acha que deve existir?
JM: Acho que música é música. O que muda é a essência das pessoas. A música cristã vai carregar princípios, porque quem a compôs vive princípios cristãos. Então, acho difícil a pessoa falar de coisas que ela não vive. Existe sim a distinção de música cristã, mas eu colocaria além: existe música com influência cristã, assim como existe influência de outras religiões na música africana, por exemplo. Como pessoa cristã e de bom senso, na questão "eu ouviria isto ou não, ou distinguiria isto ou não", eu não gosto de ouvir músicas com certas essências ou princípios, mas eu ouço músicas que falam de amor, ou que são verdadeiras expressões de arte, ou uma música que expressa opiniões, como uma opinião politica, ou apenas por entretenimento, desde que não fira meus princípios.  Acho que seria ter uma mente muito fechada limitar a arte ao cristianismo e também limitar o meu direito de apreciar a arte de alguém que pensa diferente de mim ao fato de eu ser cristão.

Heloísa Rosa e Jordan Macedo
Você acha que essa distinção está perto de acabar? A música evangélica está se tornando cada vez mais profissional comparada a música secular...
JM: Acabar, eu acho difícil. É preciso distinguir as coisas. Por exemplo, você não pode rotular um “louvor” como música geral. É música? Sim, mas louvor é louvor, assim como você tem música para um ritual, por exemplo. É diferente da música de um modo geral. Tem um lado da música cristã que é específico. Isto não podemos negar. Ela é voltada para uma ocasião, como um momento de congregação, de culto. Mas eu acredito que exista a música cristã que não é para louvor necessariamente, mas é uma expressão artística, de pessoas que vivem de princípios cristãos que, naturalmente, irão falar deles. Seria bobagem limitar isto ao público cristão ou ao público secular.

No cenário atual da música cristã em todo o mundo, como você enxerga a evolução da produção?
JM: A música cristã está evoluindo bastante. Mas tenho visto também composições cristãs com fins mercadológicos, sem essência e sem verdade. Música, antes de qualquer coisa, tem que ter verdade. As duas coisas estão crescendo: a música com verdade e a música sem verdade. A evolução técnica da música cristã tem aberto portas para as pessoas que não são cristãs para a apreciação musical de uma forma geral. Porém ainda existe o preconceito, que é uma coisa permanente.

Sobre produção de discos acústicos, tem algum que você destaca ou gosta mais?
JM: Eu gosto muito do acústico do The Corrs. O álbum foi feito em 1999, mas se você ouvi-lo agora parece que foi feito hoje. Produção é isto!

E você acredita no fim do CD?
JM: Acho que sempre existirá a nostalgia de quem viveu a época de se ter um suporte físico na música, como fotos de um trabalho no disco, por exemplo. Eu pude acompanhar a fita cassete, o vinil e o CD. ‘Acabar’ é uma palavra muito pesada. Com o passar das gerações, provavelmente o meu filho, que eu ainda não tenho, vai dar muito menos valor a este suporte físico do que eu, que vivi a época. Isto vai esfriar cada vez mais, porém não necessariamente irá se extinguir. Vai virar um artigo de luxo, para poucos.

E como foi a experiência de visitar o Abbey Road?
JM: O Abbey Road é a Disney do técnico de gravação. É um estúdio que tem uma história fantástica. A evolução da tecnologia da música aconteceu lá dentro, desde a criação da mesa analógica à evolução da música Pop, através dos Beatles, que gravavam lá, onde a história deles (Beatles) é mantida. Mas se você quiser um equipamento muito moderno, de hoje, lá também tem. Eu estava fazendo o CD de um artista e fui acompanhar a masterização do disco feita por Geoff Pesche (um dos técnicos de masterização mais renomados do mundo) para dizer o que eu queria. E, claro, para aproveitar a oportunidade de conhecer. Só entra lá quem é cliente.

O que você ouve para curtir? Você consegue relaxar ouvindo música, já que trabalha com ela o tempo todo?
JM: Sim, mas geralmente não é música atual, mas sim antiga, de todos os tipos. Ou uma música que tem uma raiz antiga, ou uma originalidade não muito tecnológica.

O que você diria para quem sonha em gravar um disco?
JM: Eu diria o seguinte: primeiro, tenha convicção de que é isto mesmo que você quer. O início da carreira artística pode ser muito sofrido. Se der certo, tem muitos benefícios, pode te deixar milionário.  Mas não comece fazendo apenas por dinheiro. Desenvolva o seu lado artístico com humildade, sem se achar demais e tenha convicção de que é isto que você quer. Se sim, lute, porque sem determinação ninguém consegue nada na vida.

*Jordan possui um canal no Youtube, onde é possível ver alguns videoclipes produzidos por ele. Assista o clipe da música "Eu já decidi", da banda Jovens da Capital, que também gravou o CD no Polo Studio:




*Todas as fotos foram cedidas pelo entrevistado


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